segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Gravidez aos 40 - parte III

(texto anterior:  aqui)
19 de dezembro de 2014
6 semanas e cinco dias 
As confirmações dos exames inundaram o meu corpo de novas sensações hormonais, fortes bastante para me fazer esquecer por algumas horas do medo da perda, que ainda paira sobre mim. Pois, embora a vida diária esteja sendo deliciosa e absorvente, quando a noite vem, eu, às vezes, a abandono e desço a uma espécie de abismo. Lá onde se encontram os meus carcereiros. Esses são os meus terríveis pensamentos. 
Enquanto não sabia que estava grávida, a mente estava tranquila. Desde o dia da descoberta, uma série de associações neuróticas tomou espaço em mim. Será o efeito dos hormônios? 
Se for, tenho que que acostumar com os respectivos altos e baixos, pois ao invés de degustar o presente que ganhei e acreditar copiosamente que desta vez tudo será diferente, ainda me pego pensando que pode acontecer tudo de novo. 
É como se a minha felicidade fosse um tesouro frágil e vulnerável. Faço comparações, relembrando o passado.
Exatamente há um ano atrás eu havia estado grávida e me lembro o que havia ocorrido em cada dia daquela gravidez, para, somente depois de alguns minutos de angustia, concluir: “desta vez será diferente! Obrigada!”
Das outras vezes que engravidei, tinha viagens de avião já marcadas. De novo, essa coincidência! Tenho uma viagem de avião marcada. O que vai acontecer desta vez, não sabemos. 
Estou com medo de todas as possibilidades. Temo sofrer tudo de novo, temo que a criança não seja saudável o suficiente para sobreviver, temo que ela não ame as pessoas, não ame a natureza, ou não goste de estudar, ou que não seja feliz; temo admitir tudo isso.
Por todas as emoções conflitantes, decidimos não comentar nada com a família, por enquanto. É uma forma de evitar possível sofrimento tanto para eles quanto para mim. Um pouco de reserva não fará mal a ninguém.
Minha intenção é seguir uma vida normal. Continuo praticando yoga e fazendo caminhadas, e comendo o que eu comia, uma vez que tenho hábitos alimentares saudáveis. Então, não há o que mudar. Obviamente, nada de bebida alcoólica. 
Como num replay, estou grávida e tendo que viajar de avião novamente. Parece um teste para medir o meu nível de tranquilidade e segurança interna. Nem sempre reconheço a força que está florescendo em mim. 
É natal e planejamos passar com a minha família no Piauí. Pensei em desistir da viagem, mas a viagem havia sido marcada antes de sabermos sobre a gravidez, e, seríamos obrigados a contar o que está ocorrendo, para evitar discussões familiares sobre a decisão de mudar os planos em cima da hora. Então, essa hipótese foi descartada.
Desistir da viagem também seria uma forma de alimentar os pensamentos negativos e incentivar o medo. Eu não faria isso comigo. Além disso, eu havia prometido ao meu irmão que levaria os filhos dele, dois menores, uma vez que ele, em razão do trabalho, só chegaria no dia do natal. 
Então, conforme previamente acertado, peguei o voo e um bom livro! A leitura tem uma capacidade de me esconder da realidade, como se enquanto eu estiver lendo nada possa me atingir. 
Antes de viajar, ainda chafurdando o medo de que tudo se repetisse, liguei para um antigo psicólogo para conversarmos. Contei-lhe do drama dos dois abortos espontâneos, para somente depois confidenciar que estou novamente grávida.
- Ora. Você me preparou para uma história dramática, e, agora me traz essa notícia linda! Por favor, faça como as flores e busque a luz. Traga luz ao momento especial que você está vivendo! Pare de dar atenção a esses pensamentos sombrios. Luz. Somente luz! - disse ele, dentre outras coisas que só uma pessoa experiente pode dizer. 
Estou trazendo luz? Passo a me perguntar! 



21 de dezembro de 2014
7 semanas
Já é possível observar que a maternidade muda como amamos e como desejamos.
Ao longo da vida de casada, aprendi que sexo deve estar em pauta constantemente. Não há como negar a importância do tema para o casal. Deixá-lo de lado é como trilhar um atalho para o começo do fim de uma vida realmente a dois.
Com todo esse medo da perda e cuidado com o corpo, meu marido e eu tivemos que conversar sobre a nossa vida sexual durante as primeiras semanas de gravidez. As informações sobre o assunto são relativamente antagônicas, como quase tudo na internet e nos consultórios médicos. 
Há quem diga que faz bem para gravidez, devido a liberação de ocitocina, há quem diga que é melhor evitar relação sexual, no início da gestação. Independentemente dos pontos de vistas que encontramos, está claro para nós dois que não pretendemos nos tornar o casal estereótipo de piadas, que pouco se apalpa, cada vez menos se beija, e, que para ter relação deve haver uma convergência planetária. 
Então, chegamos a um meio termo. Até as primeiras 12 semanas, agiremos com mais cautela e mais preliminares, e, sempre com bastante carinho. 



28 de dezembro de 2014
8 semanas
Há mais ou menos uma semana estamos na casa dos meus pais, no Piauí, com os meus irmãos para passarmos o natal juntos. 
Como os meus pais e eu moramos em cidades diferentes e distantes, nós nos vemos apenas algumas vezes ao ano. Para mitigar a saudade acumulada, tenho que aproveitar todo o tempo que tenho com eles. Tomamos café, almoçamos e jantamos juntos. Quando tenho chance, tomo banho com a minha mãe; vou ao comércio onde trabalham e lá trabalho com eles. A distância nos uniu, de forma singular. Para olhos letrados, isso pode soar edipiano, freudiano, ou coisa do gênero, para os nossos olhos, é vontade de estar perto. 
A minha mãe é uma das pessoas mais incríveis que conheço. Ela tem um rosto expressivo e sensível, que revela simplicidade e sabedoria. Além disso, ela  respeita a qualquer custo as decisões dos filhos; ela sempre incentivou a sermos o que somos. O meu pai também é um tanto quanto raro. Fisicamente é a mistura do Tom Jobim com Tarcisio Meira, embora não saiba cantar nem participe de novelas. Por outro lado,  é o maior contador de histórias que conheço. 
Juntos meus pais agem como se estivessem numa orquestra; procuram sempre estar afinados. Foi isso que vivenciei, enquanto morava com eles. Antes de descobrir a sinergia deles, a minha relação de parceria, desde a infância, foi com a minha mãe; talvez porque ela também era a intermediadora da casa. Meu pai nunca brigava; ele pedia para minha mãe fazer essa parte também. 
A minha relação com o meu pai tinha uma aparência mais burocrática do que afetiva. Ele cumpria o papel de provedor, e eu cumpria o papel de filha, obediente. Foi somente depois de uma viagem pelo sertão cearense, onde meu pai nasceu, que vim reconhecê-lo, como a pessoa rara que é. 
Meu primeiro pensamento foi “tenho um tesouro inexplorado e não sabia”. Desde então a minha relação paterna tornou-se uma fonte inesgotável de histórias e troca de experiências. Até mesmo no trabalho, quando alguém me perguntava algo cujo conhecimento não me era claro, eu dizia: “você aguarda um pouco, pois preciso consultar o meu superior”, e consultava-me com o meu pai.
Descobri também que meu pai é um exímio fazedor de beiju. A comida na minha família é uma espécie de cartão de crédito. Quanto mais você aprecia a comida, mais confiança você ganha. Sob nenhuma hipótese, eu poderia dizer que não iria comer o que estava servido. Isso causaria uma polêmica familiar. “Olhe a desfeita!”, seria o mínimo que eu ouviria. Família, por mais tranquila que seja, tem visão além do alcance. É melhor continuar como se nada tivesse acontecendo e comer o que serviam. 
Mas a verdade é que logo o corpo passou a ditar as regras da minha dieta e preferências. Eu só sentia vontade de comer beiju, baião de dois e mais feijão. 
- Ela só quer comer feijão com feijão, merendar beiju e chupar limão - observou meu pai, em voz alta. 
Por que estou revivendo isso tudo mesmo? Ah, lembrei! Porque, depois da gravidez, percebi a desproporção notória que há entre o sentimento que os pais nutrem pelos filhos e o que esses sentem pelos pais. Toda a minha experiência com gravidez ensinou-me que o amor dos pais pelos filhos é capaz de explodir o peito de gratidão e maravilha. Essa consciência fez com que o amor e o respeito que sinto por eles transbordassem, permitindo que eu navegue mais tranquila pelas minhas ilhas de sentimentalidades. Pretendo transmitir essa consciência a quem estiver chegando pela minha barriga.



04 de janeiro de 2015
9 semanas 
Não sei se em razão da quantidade de comida, ou da abundância dos novos hormônios, tive náuseas. Ao senti-las, saí discretamente da mesa e fui ao banheiro. Ninguém percebeu nada. A sensação de enjoo é nova no meu estado de gravidez. Nunca a havia sentido nas outras gestações. Talvez por essa razão, tenha certo prazer pelo avesso quando as náuseas aparecem. 
- Estou grávida - confabulo comigo mesma, chegando a dançar sozinha e sem música. 
Os enjoos me garantem certo conforto e segurança; e embora tudo leve a crer que esta gravidez seguirá o seu destino até o final, não contamos nada sobre o assunto, inicialmente, aos meus pais, para evitar cuidados em excesso e neuroses alheias. As minhas já dão trabalho suficiente para administrar.



05 de janeiro de 2015
9 semanas e um dia
Certa manhã desta semana, enquanto conversávamos, sentados à mesa do café, comentei com os meus pais que queria tomar banho de mar, como fazíamos quando crianças, todos juntos. 
Depois de nos lembrarmos dos velhos tempos, decidimos, de repente, viajar ao litoral piauiense de carro. Meu marido, meu irmão e família já tinham retornado para o Rio, em razão de compromissos pessoais, e minha irmã tinha que trabalhar. Então, fomos somente eu, meus pais e o meu afilhado de catorze anos passar uns dias na praia. 
Pegamos a estrada depois do café da manhã. Ficamos surpresos com o nosso impulso e, rindo, culpávamos uns aos outros pelo ímpeto de sair feito foragidos.
- Como foi mesmo que decidimos viajar? - perguntei. 
- Quem começou com essa história de viagem foi você - reagiu minha mãe.
- Eu? Não, só falei de banho de mar, aí o papai falou em renovar as energias.
- Sim, mas você disse que era bom para nossa saúde, que éramos privilegiados de poder viajar e que se fôssemos, algo de muito bom aconteceria. De modo que, quando pensei que não, estava fazendo a mala - reagiu a mamãe.
- Ah, então foi assim - concordei.
Durante essa semana, passamos os dias de molho na água do mar, jogando conversa fora. A roupa de banho tornou-se o nosso uniforme e só saíamos do mar para comer. 
Numa das vezes que sentamos para comer, meus pais discretamente me perguntaram se ainda estávamos “tentando”, ou se eu não queria mais “tentar” por medo de sofrer outro aborto.
- Minha filha, entenda o seguinte: só “tente” quando você tiver “muita vontade”, porque se não estraga. Não pense em nada, senão também estraga - opinou meu pai. 
- Vocês falam de sexo assim na minha frente? - meu afilhado, ouvindo a conversa, interrompeu a todos.
Não sei o porquê exatamente, mas o convidei para irmos ao mar. Andamos calados até as primeiras ondas tocarem os nossos pés e sentamos na areia úmida. Ali conversamos sobre coisas fantásticas como sexo, morte e Deus; e meu afilhado falou abertamente sobre a sua vida, como poucos adultos conseguem fazer, e ele me disse ainda que “coisas difíceis só acontecem a pessoas especiais.”
  - Dinda, você é a melhor madrinha que alguém pode ter! 
Fiquei impressionada como minha irmã fez um bom trabalho na educação do filho. É isso que pretendo aprender a fazer com a minha cria - pensei.
À noite, nós nos divertimos jogando cartas. Ficamos num hotel de chalés simples e agradáveis. Sugeri que dormíssemos de porta aberta, para sentir a brisa do mar. Após alguma controvérsia e ponderações, meus pais aceitaram a sugestão. 
Sem que eu percebesse, a minha barriga começa a apontar. O meu afilhado foi quem me chamou atenção para isso com o seu comentário sincero. 
- Dinda, você está com uma barriguinha - comentou ele inocentemente, na frente dos meus pais. O meu pai, embora seja extremamente observador, não percebeu nada de gravidez, apenas acrescentou: “volte a fazer exercício. Temos que nos cuidar!” 
Enquanto o meu pai falou isso, ele deu um peteleco na minha barriga. 
- Pode deixar. Vou me cuidar! - respondi, fingindo naturalidade e com o coração apertado, por ter que manter a minha palavra de guardar em segredo notícia da gravidez.
Coincidentemente, logo depois dos primeiros dias de banho de mar, fiquei mouca do ouvido direito! Inicialmente pensei que havia entrado água no ouvido. Tirei a água do ouvido, porém a surdez continuou. 



11 de janeiro de 2015
10 semanas
Depois de uma semana de intenso tratamento na água do mar, temos que pegar estrada e voltar para casa, em razão do meu voo de retorno para o Rio estar marcado para amanhã. 
Meu pai, meu sobrinho e eu adoramos viajar de carro, já a minha mãe não curte estrada, porém adora viajar com a gente. Então, ela se resigna e acomoda a ideia de esticarmos a volta, parando em tudo quanto é lugar, para provar comidas e iguarias, que ainda resistem, apesar da pressão mercadológica dos porcaritos ensacados. 
Paramos para comprar goma de tapioca, coalhada e milho assado na brasa!
Chegamos à casa dos meus pais à noitinha e não queríamos dormir, mas sim recordar a viagem e ficar mais tempo juntos.  
Fizemos as malas minha mãe e eu, enquanto meu pai e sobrinho fizeram o jantar: aquele arrozinho com feijão, que só se come na casa dos pais, estava uma delícia. Papai preparou a “merendeira” com o restante do que sobrou da janta, pois os voos de hoje em dia nos obrigam a uma dieta comprimida de amendoim e batata achatada. Só de pensar, sinto enjoo. 
Assim que chegar ao Rio, marcarei os exames. Dentro de poucos dias, vou saber se o saco gestacional desenvolveu-se como deve, ou se ocorreu apenas mais uma tentativa.




14 de janeiro de 2015
10 semanas e três dias
Surpreendentemente, consegui marcar uma ultrassonografia logo que voltei ao Rio. 
De novo eu me encontro naquela posição ginecológica vulnerável, e, aguardando uma resposta. Ao ler meu histórico no sistema de dados do hospital, a médica informa gentilmente que localizará primeiro os ovários direito e esquerdo, e, somente depois verificará o útero. Imagino que ela queira ganhar tempo para averiguar se o embrião vibrava, antes de dar qualquer notícia. 
- Aqui é o ovário direito. Aqui é o esquerdo - indica a médica na tela. - Aqui é o útero - continua a doutora. 
Quando ela acabou de localizar o útero, percebemos algo mexendo, como nunca tínhamos visto nas gestações anteriores. E, de repente, escutamos não mais a voz da médica, porém um baticum, que se assemelhava, pelo menos na minha imaginação, ao som da bateria da Viradouro, no ano de 1997.
- É o coração do bebê - informa a médica. Obviamente, sinto um dilúvio de alegria, que também inundou a minha alma. 
A partir de agora, é só aprender a lidar com o medo de ser feliz.



21 de janeiro de 2015
11 semanas e três dias 
Desde que ouvimos o coração do bebê, meu marido sugeriu que deixássemos para saber o sexo, no dia do nascimento. 
Essa decisão provocou, em todos a nossa volta, uma sequência de perguntas: 
- Como não saber o sexo? E o quarto? E o enxoval? Como você aguenta? E o nome?
- Mas nada disso tem importância para quem passou por dois abortos - penso sem responder as perguntas. A verdade é que eu só me importo com a saúde do bebê, pois o medo da perda se esconde entre os meus pensamentos. Com relação a qualquer outro assunto, é como se eu soubesse que em algum momento tudo dará certo. 
Decidimos não comprar nada até que a gravidez vingasse! Somada a essa decisão havia o fato de estarmos duros. A crise econômica de 2015 nos pegou ainda em 2014. Em outubro de 2014 nós nos mudamos do Rio para uma casa, em reforma, da família do meu marido em Niterói, com o intuito de economizarmos no aluguel. A crise foi mais um motivo para não pensar em comprar nada. 
A experiência que estou tendo agora é superior a qualquer bem de consumo. Mentalizo! 
Por não sabermos o sexo do bebê, tivemos que pensar em nomes de meninos e de meninas. Em conversa com o meu marido sobre nomes, não chegamos inicialmente a um ponto comum. A esse respeito, o irmão do meu marido sugeriu que fizéssemos, cada um, uma lista com dez nomes de meninos e dez nomes de meninas, para somente depois mostrarmos um ao outro. 
- Em geral há sempre uma ou duas coincidências - garantiu o irmão. 
Fiz a lista de nomes por escrito, o meu marido disse que tinha em mente os nomes. e quando me perguntam sobre os possíveis nomes, cito os nomes do final da lista e fico um tanto surpresa com as reações. 
- Esse nome?! Ah, não. Conheci uma pessoa que se chamava assim e ela não era legal.
Para evitar as comparações sem sentido e comentários desatentos, combinamos de não mencionar o nome favorito a ninguém. No momento certo, o bebê terá nome e o que vestir. 




23  de janeiro de 2015
11 semanas e cinco dias 
As alterações na gravidez não se restringem à aparência física. Sinto um coquetel de emoções. 
Apesar do apoio incondicional do meu marido, a gestação está sendo também um período no qual sinto uma solitude cósmica. Aquela que, ao invés de causar insegurança, busca a cura e a paz. 
O medo, entretanto, de vez em quando, aplica-se em atrapalhar essa busca. Aos poucos, vou aprender a me curar dele também. Prometo. 





01 de fevereiro de 2015
12 semanas 
Cada vez que eu tenho que fazer uma ultrassonografia, minha sessão interior de cinema cria filmes atemorizantes sobre o que poderá acontecer. Fico exausta de pensamento. Então me lembro: “estou buscando luz?”. Nem sempre funciona de imediato, porém insisto em plantar essa semente luminosa. 
Tive dificuldade em marcar a ultra da translucência nucal, embora eu tenha o privilégio e a vantagem de ter plano de saúde. 
Liguei para vários laboratórios, que aceitavam o meu plano de saúde, porém só haveria vaga dentro de algumas semanas. 
A ultra da translucência tem prazo certo para ser realizada. Não tive alternativa senão marcar numa clínica particular, sem qualquer indicação da qualidade da ultra ou do médico. 
Hoje em dia, há aparelhos super modernos. Entretanto, na clínica particular onde consegui vaga, o aparelho era antigo e parecia uma televisão daquelas de antigamente. 
Para a nossa sorte, havia horário disponível. Fomos atendidos na hora marcada, e, por uma médica extremamente atenciosa. Apresentamos o pedido médico, e ela nos convidou para entrar. Em seguida, solicitou que eu sentasse naquela posição vulnerável, e assim o fiz. 
Enquanto ela manuseava o aparato já dentro de mim, localizando o feto, meu marido perguntou se esse exame dava o peso e o tamanho do bebê. 
- Sindrome de down - respondeu a médica concentrada, olhando a tela do computador.
Minha mente já estava mergulhada em todas as hipóteses de síndromes, como que tentando não ser pega de surpresa e se sentindo superior a mim mesma. Eu dentro de mim, por outro lado, sentia uma separação dos meus eus. As minhas emoções estavam confusas, eu aceitei. Não falei nada; só segurei firme a mão do meu marido.
- Prontinho! Está tudo bem com o bebê. A chance de acerto desse exame é de 85% - disse a médica.
Até esse momento, a confusão mental e emocional dominavam o meu corpo. Eu não havia entendido qual era de fato o resultado. 
- Está tudo bem quer dizer o quê? - eu me perguntei. 
Confusa e um pouco envergonhada, expliquei para ela que eu estava apreensiva por já ter passado dos quarenta anos e ter sofrido dois abortos. Ela disse que lhe passou o mesmo; que ela se tornou mãe depois dos quarenta, já havia sofrido aborto, e nos mostrou uma foto da filha. 
- Está tudo bem. O resultado do exame está normal e a chance de acerto é maior do que a de erro - complementou a médica.
Enquanto meu marido recebia o resultado do exame em mãos, pedi licença para ir ao banheiro. 
No banheiro, ao absorver a notícia de que estava tudo bem, caio de joelhos e agradeço a Deus pelo que estou vivendo. Somente depois de alguns minutos ali naquele apertado banheiro de consultório, eu me dou conta de quanto sofrimento  estou me causando, por medo de algo que não existe. Nada aconteceu de preocupante. Está tudo bem. 
Preciso parar de cultivar sofrimento. Como vou fazer isso, não está claro. Voltar a me perguntar constantemente: “estou trazendo luz ao momento?” parece um bom recomeço. 
Para lidar bem com uma situação o método mais eficiente, para mim, é escrever o que sinto. Então, registrei no meu caderno de anotações matinais: “vou evitar diariamente me ocupar com os problemas que não existam; eu me comprometo a ser mais carinhosa comigo; quando os pensamentos negativos surgirem, vou esperar passar, sem dialogar com eles. Afinal, tenho a meu favor, o fato de que o período de maior risco de abortamento passou.”
O medo não desapareceu. Ele continua ali, ocupando um espaço mental considerável, mas decidi não alimentá-lo. 
Os diálogos com o medo, quando estou presente, resumem-se a: “medo, você está ai? Então, acomode-se e relaxe, o resto faço eu,” e saio para caminhar. Se estiver chovendo, faço yoga, de acordo com um livro de yoga para gestantes, que ganhei de uma amiga. 
Além disso, voltei a meditar diariamente, buscando os espaços de paz entre os pensamentos caóticos, que insistem em surgir. 
A cada dia, passo a me sentir mais confiante do presente que ganhei. Talvez seja a hora de compartilhar a notícia com a família e com os amigos. 




06 de fevereiro de 2015
12 semanas e cinco dias
Quando me sentei para meditar, antes de dormir, num dos dias desta semana, pensei como seria útil e benevolente comigo mesma, se antes de sair por aí anunciando a notícia, eu pudesse voltar àquela ilha de sentimentos tristes onde já chorei bastante. 
Se, como num passe de mágica, a vida tem a capacidade de transformar eventos, que julgamos ruins, em experiências positivas, por que nós seres humanos também não a teríamos? 
Estamos num lugar que julgamos tedioso e de repente encontramo-nos com um amigo, que não vemos há bastante tempo, e o momento torna-se divertido; já não queremos sair dali. A vida apronta tantas coincidências, não apronta? E, numa fração de segundos, como num passe de mágica, o momento transformou-se em presente.
É um desperdício não tentar fazer isso por escolha própria. Disso quero me convencer. 
Deve até mesmo ser natural termos essa capacidade, porém não a usamos, por puro julgamento antecipado. 
- Não gosto nem de me lembrar desse dia. - Não quero mais falar sobre esse evento. E o sentimento, que poderia ser transformado, permanece triste em nossos corações, como se fôssemos prisioneiros dele. 
Pretendo fazer as pazes com as experiências, que rotulei como eventos ruins. Quero me libertar delas e libertá-las de mim. Aqui me refiro principalmente às perdas. Gostaria de conversar com elas como se fôssemos três seres divinos, incapazes de ressentimentos. 
Assisti recentemente a um vídeo de uma TED Talk, na qual um biólogo explica que a mulher mantém no corpo algumas células do filho e vice-versa. De modo que um sempre carrega o outro dentro de si. 
Achei essa informação tão poética e amorosa que pensei em transformar essas experiências, que fazem parte de quem eu sou hoje, em experiências positivas. Quem sabe nós somos realmente capazes de estender essa magia a todas as experiências da vida?
É simples, mas não é fácil. Talvez isso levará mais tempo do que imagino. Porém não tenho pressa. Um dia vou voltar àquela ilha e vou plantar um pé de alegria por lá.
Sem perceber, já estava recostada, no almofadão da cama, prestes a me entregar ao sono, quando marquei, no calendário mental, o dia seguinte para começar a exercitar a capacidade de transformar eventos tristes em experiências positivas, pois a sonolência já embevecia parte dos meus sentidos. Em alguns minutos, eu cairia num típico sono de grávida. 
No entanto, a ideia de desenvolver essa capacidade permanecia ali viva e falante. 
- Por que não faz agora? Por que não tenta exercitar a magia da vida agora, enquanto não está completamente entregue ao sono? Levante, vamos?!
Tentei dormir, argumentando “amanhã começo, amanhã começo”, porém a ideia continuou, latejando e perguntando repetidamente:
- Por que não agora? Por que não agora?
Não sei exatamente de onde reuni forças e me levantei, fui o quarto ao lado, recém reformado, e me sentei no tapete de yoga que estava estendido no chão, onde costumo praticar exercícios.
Então, ali sentada e de forma incipiente, busquei os aspectos positivos daqueles eventos. 
O primeiro que me ocorreu foi o fato de ser inegável que tive um treinamento, ainda que duro, de como ouvir o corpo e deixar que ele faça o que é preciso ser feito, sem deixar que a voz mental intervenha para me desencorajar. 
Depois lembrei que aquilo tudo fez florescer em mim e no meu marido a vontade de gerar uma nova vida, que dependeria de nós dois por bastante tempo, mudando as nossas vidas de ponta-cabeça. 
Em seguida, dei-me conta que a dificuldade de lidar com a perda é a dificuldade de lidar com um amor perdido. No entanto, “nada se perde, tudo se transforma”. Aquele amor, que julguei perdido, espalhou-se pelo ar, polinizando mundo a fora, e, abrindo espaço para novos amores. 
Não sei exatamente em que momento dessa elucubração, dei-lhes nomes e os abracei com o meu sentir e lhes reservei um lugar de carinho, dentro de mim. Pode não ser possível agora plantar na ilha uma árvore de alegria, mas é certamente possível plantar um pé de gratidão.
Então, eu me senti livre para contar sobre a gravidez aos familiares e amigos.



08 de fevereiro de 2015
13 semanas
O resultado dos exames e das ultrassonografias iniciais levam a crer que a minha gravidez caracteriza-se por ser uma gravidez de baixo risco. 
Com os resultados nas mãos, fomos conversar com a minha médica sobre parto, acompanhante, hospital, aceitação do plano de saúde nos hospitais etc. Eu estava confiante de que ela faria como eu quisesse.
Meu marido, porém, havia pesquisado mais sobre parto do que eu. Ele tinha uma lista de perguntas para lhe fazer e havia se familiarizado com os termos técnicos: tricotomia, episiotomia, ocitocina sintética etc. 
Chegamos ao consultório e enquanto aguardávamos para ser atendidos, o meu marido, que havia levado computador, o abriu e continuou a sua pesquisa. Eu o interrompi, perguntando porque ele estava tão preocupado com isso, pois só iríamos falar sobre a vontade que eu tinha de ter parto normal. 
- Não é simples assim. As estatísticas mostram que, hoje no Brasil, o normal é se fazer uma cirurgia cesariana; comparados com os outros países, somos campeões em cesariana; isso sem falar em morte de prematuros. Para completar, os médicos recebem uma quantia ínfima do plano de saúde pelo parto normal. O sistema de saúde conduz tanto o médico quanto a paciente a optarem por fazer uma cesária. Os relatos das mulheres são, em grande número, frustrantes. Há casos de mulheres que estavam em trabalho de parto e, sob um argumento difícil de ser avaliado pela maioria das pessoas, tiveram que ir para mesa de cirurgia. Os dados não são nada animadores. Está tudo na internet para quem quiser ver - disse meu marido, em um tom severo.
- Eu só vou pra mesa de cirurgia, em caso de necessidade - contestei. Em seguida, fomos convidados a entrar a sala de consulta.
A médica foi extremamente honesta. 
- A preferência dos médicos hoje é pela cirurgia cesariana, em especial em casos de mulheres com mais de 40 anos.”, ela disse. - Mas podemos tentar o parto normal - completou ela.
- E como é o parto normal? Tem aquele corte? - perguntou o meu marido sem o menor embaraço, referindo-se à episiotomia - um corte na vulva da mulher, para acelerar a descida do bebê, mas que havia se tornado uma rotina no parto normal. Sobre isso eu também havia lido e sentia arrepios só de pensar na hipótese de ter um atalho lateral sem saída na minha vulva. Esse corte me leva a pensar nas mulheres, de alguns países africanos, que sofrem mutilação genital em razão da tradição machista de que mulher não pode ter prazer. Não conseguia ver de outra forma e não estava disposta a consentir com uma intervenção dessa natureza, sem um real motivo. 
- Isso é procedimento de rotina. É necessário em 99,9% dos casos. É assim que funciona; não inventei nada; está nos livros de medicina. A sua esposa vai estar em outro momento, ela não vai nem sentir - respondeu a médica. 
- Que homem aceitaria ter um talho no pênis, sem que tenha sido provado e comprovado a sua real necessidade? - pensei em silêncio. A conversa só me angustiava. 
Meu marido continuou fazendo as perguntas da lista, que provocava um discreto balançar da cabeça da minha médica, em aparente desaprovação. 
- Tem que ter anestesia? E ocitocina sintética? - reagiu ele.
- Nós colocaremos uma acesso no braço da sua esposa, caso seja necessário introduzir medicação; normalmente é.
- Eu não quero parir deitada, nem anestesia! - intervim, interrompendo o diálogo.
- Faremos o possível - respondeu a minha médica. 
- Posso levar uma doula? - perguntei. 
- Pra que você quer uma doula, na sala de parto? - perguntou médica.
Até esse exato momento, eu sabia pouco sobre o trabalho da doula. Uma amiga, entusiasta do parto humanizado, contou que conseguiu parir sem anestesia por causa das massagens da doula. 
- Pra fazer massagem nas minhas costas - respondi sem convicção.
- E posso participar do parto?”, perguntou meu marido.
- Você ficará sentadinho, para não atrapalhar.” 
Com essa resposta, pairou no ar um silêncio ensurdecedor. Ficamos os três, cada um olhando para um lado diferente da sala. Já estávamos lá há mais de uma hora; era o fim da consulta, mas não o fim do constrangimento. Permanecemos todos meio estremecidos, na despedida. 
No caminho de volta para casa, afirmei para o meu marido que eu não queria aquele tipo de parto. 
- Faço qualquer esforço para evitar bisturi e anestesia. 
- A decisão sobre a escolha da médica é sua - enfatizou ele.
Eu não sabia o que iria fazer. A minha médica já me acompanhava há vinte anos. Além disso, como eu iria dizer a ela que não queria aquele tipo de parto? E será que eu encontraria outra médica de confiança, que aceitasse as minhas ponderações e necessidades? 
Passei a noite pensando como abordar o assunto e como deixar claro que eu gostaria de parir tranquilamente, sem intervenção de agulha ou bisturi, sem acesso, sem corte na vulva. 
Pela manhã, recebi a prova de que não vale a pena se preocupar com problemas, que ainda não existem. 
Logo cedo, depois do café, o telefone tocou. Era a médica, dizendo que não teria condições de fazer o meu parto, tendo em vista a nossa abordagem na última consulta. 
Já tinha ouvido falar de médicos, que inicialmente aceitam as condições da gestante, e, no momento próximo ao parto, as regras mudam e a parturiente não dispõe de tempo hábil para exercer o seu direito de parir naturalmente. Por isso, eu a admirei ainda mais. Desse modo, ela evitou uma possível frustração e me deixou livre e com tempo para decidir o que fazer. 


11 de fevereiro de 2015
13 semanas e três dias
Enquanto busco informações e reflito sobre o meu desejo de parir naturalmente,  sinto um encantamento pelo assunto e tenho vontade de espalhar os benefícios do parto natural pelo mundo. 
Conversando, ao acaso, com outras mulheres que encontro nas antessalas de consultórios, ou mesmo em vias públicas, tento acaloradamente convencê-las a parir naturalmente. 
Conforme nossas conversações progridem, observo um abismo formar-se entre nós.
A essa altura, ao invés de ter diante de mim novas amigas de percurso, transformo-as em fugitivas, tentando escapar do meu colóquio. 
Só depois que o abismo torna-se tão gigante, aos meus olhos, que me deixa do tamanho de um grão de areia, dou-me conta de que ninguém pediu minha opinião nem meus conselhos. 
Para minha sorte, antes que seja tarde demais para o início de uma interação autêntica, compreendo que assim como eu não quero ser obrigada a fazer uma cirurgia, há mulheres que não querem passar pelo trabalho de parto. 
Então, mudo rapidamente de postura e me contenho, primeiro porque sinto uma necessidade de conexão com outras mulheres maior do que a necessidade de ter razão, segundo porque não faz sentido impor como certo o meu modo de querer sentir as transformações do rito da gravidez até o nascimento, e, por fim, porque, no fundo, acredito que cada mulher tenha o direito de escolher o seu melhor parto possível. Podem até haver coincidências, porém haverá também divergências.  
Essa mudança de atitude permite que a conversa prossiga mais relaxada e íntima. Com isso, tenho a oportunidade de observar que queremos todas o melhor para nós mesmas, queremos todas o melhor para os nossos filhos, queremos todas o melhor para o mundo; o que não quer dizer que vamos trilhar o mesmo caminho. Nenhuma mulher é melhor que a outra porque faz essa ou aquela opção. Além disso, esse tema não pode ser motivo para nos desunir. Se por parto natural, por cirurgia, ou por adoção, seremos todas mães e conheceremos o grande amor.